Artistas | Programa | Projecto Arquitectónico | Serviço Educativo
Organização | Curadoria | Ficha Técnica
Contactos | Imprensa Docs | Apoios.Sponsors



Uma Bienal em (re)construção _
João Carlos Silva


Esta folha de papel, ou este lado do catálogo docemente desenhado
por Henrique Cayatte, ao sabor de uma tablete de chocolate/gengibre
Claudio Corallo, podia ficar em branco. Ou apenas, se quiserem,
com impressões digitais dos que ousaram um dia construir uma Bienal
de Arte e Cultura em S.Tomé e Príncipe, numa Roça com nome de santo.

É o que consta do histórico desta aventura. Mas esta folha de papel,
dizem, está selada também com lágrimas daqueles que, desde as primeiras
chuvas de desconfiança, acreditaram que era possível semear e desafiar
os deuses da desesperança, teimosamente instalados por cima das suas
cabeças: anunciadas, sequeiras, gadiagas, silvas …

Uma Bienal primeira na Roça/árvore para “roçar” sonhos utupiadores
da transformação de um Entreposto de Escravos em Entreposto Cultural,
capaz de dialogar com culturas de todas as latitudes que estão na génese
e nas raízes matriciais de um País insular e multicolor: S.Tomé e Príncipe.

Mas esta folha de papel quer mais. Quer ficar aberta, assim, dolorosamente
aberta e livre, atrevida e irrequieta para continuar a (re)construir a ponte
de afectos  entre os povos de língua portuguesa. Para melhor entendermos
o sentido e a importância das (sin)fonias do Mundo.

E, se esta Bienal chegou até aqui, ela quer ir mais longe. Quer fazer
com folhas de qualquer papel reciclado uma “arma” geradora de outros sonhos
e vontades, iniciativas e momentos propiciadores a uma CULTURA DE PAZ
e concertação imaginativa, ancorada na auto-estima e orgulho de ser santomense/Mundo.

 Para isso, juntamos agora nesta folha de papel, outras mãos, outros olhares
transversalmente solidários para redesenhar e partilhar antigos e novos
territórios, celebrando com criatividade e imaginação, tradição/modernidade.
Agora gingas, amados, rangeis, castros, carvalhos, brancos, tavares, sousas,
ceitas, domingos, bragas, mestres, agualusas e muitos outros. Um movimento.
Para fazer de S.Tomé e Príncipe um Território/País de trânsito criativo
e de Fórum Cultural permanente, casando cultura e turismo, ingredientes
importantes para o desenvolvimento harmonioso do País.

Um dos papéis desta Bienal tem sido formar/educar/sensibilizar/desassossegar
com arte e cultura para a inclusão social e para a cidadania. Centenas
de jovens frequentaram ao longo destes anos, workshops de formação
nas áreas das artes plásticas, teatro, dança artesanato, fotografia, cerâmica
e participaram em colóquios e conferências sobre os mais variados temas.
E conviveram festivamente com gentes de várias nacionalidades.

As residências criativas de vários artistas/formadores para esta edição
e a bolsa de criadores/formadores que está a ser organizada numa perspectiva
de continuidade, vão no sentido do aprofundamento de uma “Escola das Artes”
adequada às realidades do País.

E uma Bienal em (re)construção ainda pelo facto de podermos contar, pela
primeira vez, com o contributo apaixonado e experiente de Adelaide Ginga
como Comissária e a sua disponibilidade para continuar a trabalhar na consolidação
deste Projecto.
A dimensão internacional que esta Bienal conquistou e as personalidades
que aceitaram estar presentes neste evento vêm reforçar a ideia de que o riquíssimo
património de SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE tem potencialidades que devem ser aproveitadas
e trabalhadas para a sua projecção no Mundo. Os projectos integrados sobre
o TCHILOLI que estão a ser desenvolvidos podem bem ser o exemplo disso mesmo.
Resta agora assumir o desafio partilhado com as autoridades santomenses
e outras para que esta importante performance popular seja candidata
a Património Mundial.
O convite aceite por sua Ex.ª o Presidente da República Democrática de S.Tomé
e Príncipe, Fradique de Menezes, como Alto Patrocinador desta V Bienal de Arte
e Cultura e o apoio do Governo de SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE expresso pelo Primeiro
Ministro, Emery Trovoada, significa para nós o reconhecimento do esforço
e do trabalho realizado.
Nesta folha queremos continuar a escrever que “utopiar” é o verbo/arte mais bonito
do MUNDO. E como utopia é semente do desenvolvimento, podemos agora juntos
rasga-la porque o principal testemunho é a paixão pelas ideias e coisas das
nossas TERRAS.

Em Salvador, Baía de Todos-os-Santos, conheci um artista/ministro de nome
Gil que ministrou uma aula sobre Cultura e Desenvolvimento para agentes/falantes
de língua portuguesa. Juntos recordamos o papel de S.Tomé e Príncipe como pré-Brasil.
Tempos depois viria a conhecer um comandante/comunicador angolano/português
que me declarou ser um pró-S.Tomé e Príncipe de alma e coração. Aceitou
ajudar/partilhar com uma condição: que a Bienal continuasse a ser, sobretudo,
uma Festa/MUNDO. Acrescento: e continuarmos a ter “esperança na desesperança”
como diz e bem a poeta/poetisa Alda do Espírito Santo.

Que todos os santos protejam os patrocinadores públicos e privados, os apoiantes
e fazedores deste evento. Todos os que um dia ousaram “vestir a camisola” BIENAL.

Mas no meio desta festa quero pedir autorização para dançar com uma mulher,
minha princesa/cúmplice das aventuras de todos os dias. Isaura Carvalho.
Obrigado.

Sonhar é preciso. Fazer é possível.


João Carlos Silva
Presidente do CIAC e da Comissão Organizadora da V Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe







© CIAC - Centro Internacional de Arte e Cultura


Partilhar Territórios